O protocolo, com a limitação de a intervenção VAR acontecer nos casos de erro claro e óbvio, ajuda a explicar as diferentes posturas por parte do videoárbitro.

Do jogo Feirense-Benfica foram inúmeras as situações que geraram polémica e discussão, quer em torno das decisões da equipa de arbitragem, quer do videoárbitro (VAR). Uma vez mais, o protocolo e as suas limitações, bem como o domínio de intervenção do VAR, a sua uniformidade de critério e a legalidade ou não de algumas decisões, foram o tónico dominante do muito ruído que se fez sentir. Nesse sentido, e como já tive oportunidade de comentar esses lances e as decisões tomadas aqui neste meu espaço de opinião, procuro, sobretudo, agarrar nas ocorrências e explicar, acima de tudo, o que diz a lei, as normas, os regulamentos e o protocolo. Sempre numa perspectiva construtiva, pedagógica e, sobretudo, assertiva e positiva.

Uma das perguntas que foi colocada por quase todos os órgãos de comunicação social aos especialistas em arbitragem foi se na execução do pontapé de penálti por parte de Pizzi (minuto 40), a forma como o médio do Benfica correu para a bola e executou o remate implicava alguma irregularidade. Dito de outra forma, se aquele movimento de “paradinha” é possível ser feito de acordo com as leis de jogo.

Começo por dizer que sim, de uma forma genérica e simplista, podemos dizer que até chegar à bola, é possível fazer a “paradinha”, já no momento do remate é que tal não é permitido. Mas, de uma forma mais técnica e para que se perceba o que estou a dizer, vamos ao que a lei 14 (Pontapé de Penálti) diz. “A simulação (paradinha) durante a corrida é permitida, o jogador executante só será punido com livre indirecto e cartão amarelo, se ele simular pontapear a bola depois de ter concluído a corrida.”

De acrescentar ainda que o executante do pontapé de penálti, deve pontapear a bola para a frente, sendo que toques de calcanhar são permitidos desde que a bola se mova para a frente.

Outro dos lances polémicos foi o do golo anulado ao Feirense, ao minuto 20, por eventual fora de jogo. Briseño, ao tentar jogar a bola, mesmo não lhe tocando, tem impacto na acção do Vlachodimos. A questão é saber, porque nenhuma imagem esclarece, se o jogador do Feirense está ou não adiantado em relação ao penúltimo adversário.

Já sabemos que há estádios que não reúnem as condições técnicas para se colocarem as câmaras de fora de jogo, quer em termos de posição, quer em altura, para se poder aferir desses lances. Mas, sob o ponto de vista de arbitragem, dizer o seguinte. Só havia uma pessoa que realmente estava colocada em posição de averiguar o lance – o árbitro assistente. Sendo uma bola parada e estando ele alinhado com o penúltimo jogador do Benfica, ele poderia melhor do que ninguém avaliar. Daí que, de uma forma clara e coerente, temos que dar o beneficio da dúvida à decisão final.

O VAR, no caso e tendo exactamente as mesmas imagens e os mesmos ângulos (porque só dispõe das mesmas câmeras da operadora que transmite o jogo), e não tendo nenhuma imagem que prove que a decisão é claramente e obviamente errada, não pode intervir no lance. Assim, faz uma “checkagem” do lance, socorre-se de todas as imagens e não tendo uma que lhe dê com a certeza absoluta que o golo é legal, não pode intervir e tem de validar a decisão da equipa de arbitragem (fora-de-jogo) que está no terreno.

Relativamente a outros dois lances que ocorreram – um ao minuto 36 (o penálti que o VAR deu por pontapé de Aly Ghazal sobre Pizzi) e outro ao minuto 47 (uma pisadela dentro da área benfiquista que Florentino deu sobre João Silva e que foi reclamado por parte do Feirense como um penálti que ficou por assinalar), a questão principal é que o mundo do futebol não entende, nestes, como em outros lances do género, o porquê de em algumas situações o árbitro ir ao monitor e ver pelos próprios olhos as imagens e noutros isso não acontecer.

Ora, uma vez mais, o protocolo, com a limitação de a intervenção VAR ser só nos casos de erro claro e óbvio, ajuda a explicar estas diferentes posturas por parte do videoárbitro. Neste caso concreto achou que foi óbvio o penálti sobre Pizzi e achou que era duvidoso o possível penálti de Florentino e, nesse sentido, interveio num lance e no outro deixou passar. Tem a ver com a interpretação que fez dos lances. Para mim, contudo, se intervém num tem de intervir no outro, ou então não intervém em nenhum, até porque, em abono da verdade, ambos são duvidosos e nada claros e óbvios.

Como contornar isto no futuro? Na minha opinião a solução passa por alterar o protocolo. Deve deixar de haver intervenção do VAR só em casos de erro claro e óbvio para passar a não intervir quando a decisão do árbitro for clara e obviamente certa. Havendo dúvida, o VAR passaria a intervir, sugerindo ao árbitro a visualização no monitor de todos os casos de potencial penálti. Teríamos assim todas estas situações tratadas de forma igual e uniforme.

Artigo retirado do Jornal Público

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